Como a nação asiática redefiniu o conceito de vantagem comparativa para construir uma potência industrial global a partir de uma estratégia deliberada de Estado.
Publicado em 15 de outubro de 2026
A transformação da Coreia do Sul de uma nação agrária e devastada pela guerra em meados do século XX para uma potência industrial e tecnológica global é um dos fenômenos econômicos mais estudados da história moderna. O país, antes receptor de ajuda internacional, tornou-se um doador e um líder em indústrias de alto valor agregado. Esta jornada não pode ser explicada pelas lentes da teoria clássica das vantagens comparativas, que postula que os países devem se especializar naquilo que produzem de forma relativamente mais eficiente com base em suas dotações naturais. A Coreia do Sul, com poucos recursos naturais, escolheu um caminho diferente: o da construção deliberada de vantagens competitivas, um conceito hoje conhecido como vantagens dinâmicas.
O ponto de partida coreano era desolador. Após a Guerra da Coreia nos anos 1950, o país tinha um PIB per capita comparável ao de nações da África Subsaariana. A estratégia inicial, liderada pelo governo do general Park Chung-hee a partir da década de 1960, foi uma ruptura com a ortodoxia econômica. Em vez de focar na agricultura ou em indústrias leves de baixa tecnologia, o governo coreano direcionou capital, crédito e recursos para setores estratégicos considerados cruciais para o futuro: primeiro a indústria pesada e química, depois a automobilística e, finalmente, a eletrônica e de semicondutores. Essa abordagem, muitas vezes chamada de desenvolvimentista, foi executada em estreita colaboração com os conglomerados familiares, os chaebols, como Samsung, Hyundai e LG.
A Arquitetura da Vantagem
A estratégia coreana se apoiou em alguns pilares fundamentais. O primeiro foi o controle do sistema financeiro pelo Estado, que permitiu canalizar crédito barato e abundante para os setores escolhidos. O segundo foi uma política comercial protecionista, que blindou as indústrias nascentes da concorrência internacional, ao mesmo tempo em que incentivava fortemente a exportação. Os chaebols eram pressionados a atingir metas ambiciosas de exportação para obter acesso contínuo ao crédito subsidiado. Era um sistema de incentivos e disciplina.
O terceiro pilar, e talvez o mais crucial, foi um investimento maciço em capital humano e tecnologia. A Coreia do Sul elevou drasticamente seus níveis educacionais, com foco em ciências, tecnologia, engenharia e matemática. O governo e as empresas também investiram pesadamente na aquisição e, mais importante, na assimilação e adaptação de tecnologia estrangeira. Institutos de pesquisa públicos, como o KIST (Korea Institute of Science and Technology), fundado em 1966, desempenharam um papel vital na ponte entre a tecnologia global e as necessidades da indústria local. O objetivo não era apenas imitar, mas dominar o conhecimento para, eventualmente, inovar. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2019 destaca como o investimento em P&D, que hoje ultrapassa 4, 5% do PIB coreano, foi um motor central para a sofisticação de sua pauta exportadora.
Da Imitação à Inovação
O caso da indústria de semicondutores é emblemático. Nos anos 1980, a Samsung, com forte apoio governamental, decidiu entrar no mercado de chips de memória (DRAM), então dominado por empresas japonesas e americanas. A aposta era de altíssimo risco. A empresa incorreu em perdas massivas por anos, mas persistiu, investindo em P&D e na escala de produção. No início dos anos 1990, a Samsung já havia se tornado a maior produtora mundial de DRAM. A crise financeira asiática de 1997, embora dolorosa, forçou os chaebols a se reestruturarem, focando em seus negócios principais e aprofundando sua competitividade global. A Hyundai, por sua vez, evoluiu de uma montadora que produzia modelos baseados em tecnologia licenciada para uma marca que compete globalmente em design, qualidade e, mais recentemente, em veículos elétricos.
A vantagem comparativa não é algo estático, dado pela natureza. Ela pode e deve ser criada. A essência do desenvolvimento econômico é a aquisição de capacidades produtivas e tecnológicas que permitem a um país produzir bens mais sofisticados e de maior valor.
Essa abordagem é o cerne da teoria das vantagens dinâmicas, formalizada por economistas como o sul-coreano Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge. A teoria argumenta que o desenvolvimento industrial não acontece por acidente ou apenas pela liberalização dos mercados. Ele requer uma política industrial ativa e estratégica, onde o Estado atua como um catalisador, coordenando investimentos, gerenciando riscos e fomentando a acumulação de capacidades. A Organização Mundial do Comércio (OMC), embora promotora do livre comércio, reconhece em diversas publicações o papel que políticas industriais bem desenhadas podem ter na transformação estrutural de uma economia.
Para levar adiante
A experiência coreana oferece lições valiosas para nações que buscam ascender na cadeia de valor global. Não se trata de replicar o modelo de forma idêntica, mas de compreender seus princípios fundamentais.
Visão de longo prazo: O desenvolvimento industrial é uma maratona, não uma corrida de cem metros. Requer paciência, consistência e um Estado capaz de sustentar uma estratégia por décadas.
Investimento em capacidades: O foco deve estar na construção de conhecimento e habilidades. Isso significa investir em educação de qualidade, ciência, tecnologia e na capacidade de absorver e adaptar inovações externas.
Colaboração público-privada: O Estado não precisa escolher vencedores, mas pode atuar como um parceiro estratégico do setor privado, ajudando a superar falhas de coordenação e a investir em áreas de alto risco e alto retorno social.
Disciplina e competição: A proteção a indústrias nascentes só funciona se for temporária e condicionada a metas de desempenho, especialmente de exportação. A exposição gradual à competição internacional é o que força as empresas a se tornarem eficientes e inovadoras.