O sol se derrama sobre o porto de Busan, o sexto mais movimentado do mundo, iluminando uma coreografia de guindastes, contêineres e navios que se estende até o horizonte. Menos de setenta anos atrás, o cenário era outro: uma nação em ruínas, com sua infraestrutura e sua moral destruídas pela guerra. A Coreia do Sul, em 1953, era um dos países mais pobres do planeta, com uma renda per capita inferior à da maioria das nações africanas e latino-americanas. Hoje, é a décima maior economia do mundo, um líder em inovação e tecnologia. A história dessa transformação radical não é um milagre, mas o resultado de uma estratégia deliberada e audaciosa, uma que desafia as noções tradicionais de comércio e desenvolvimento.
Enquanto a teoria econômica clássica, formulada por David Ricardo, defende que os países devem se especializar naquilo em que possuem uma vantagem comparativa natural, seja terra, recursos ou mão de obra barata, a Coreia do Sul escolheu um caminho diferente. Um caminho que não se baseava em suas dotações existentes, praticamente nulas, mas em suas aspirações futuras. Este é o cerne da Teoria das Vantagens Comparativas Dinâmicas, um conceito que explica como nações podem, ativamente, criar suas próprias vantagens competitivas no cenário global.
A Arquitetura da Prosperidade
A estratégia coreana foi multifacetada, porém centrada em um objetivo claro: construir uma economia industrializada e orientada para a exportação. O governo, a partir dos anos 1960, sob a liderança do general Park Chung-hee, desempenhou um papel central nesse processo. Não se tratava de um socialismo de estado, mas de um capitalismo de estado altamente estratégico, onde o governo atuava como um catalisador, um coordenador e, por vezes, um disciplinador do setor privado.
O primeiro pilar foi o investimento maciço em educação. A Coreia do Sul, hoje famosa por seu sistema educacional rigoroso, focou na formação de uma força de trabalho altamente qualificada. Em 1965, a taxa de alfabetização de adultos já era de 70%, segundo dados do Banco Mundial. O governo promoveu o ensino de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), criando o capital humano necessário para absorver e, eventualmente, inovar em tecnologias complexas.
O segundo pilar foi o acesso ao crédito. O estado coreano direcionou o capital financeiro, com forte influência sobre os bancos, para setores industriais considerados estratégicos. Indústrias nascentes, como a siderúrgica, a de construção naval e, posteriormente, a de eletrônicos, receberam financiamento farto e de longo prazo. O caso da POSCO (Pohang Iron and Steel Company), fundada em 1968 com ajuda de fundos de reparações de guerra do Japão, é emblemático. O Banco Mundial considerou o projeto inviável. Hoje, a POSCO é uma das maiores e mais eficientes siderúrgicas do mundo.
Chaebols: Campeões Nacionais ou Gigantes de Frankenstein?
O terceiro e talvez mais controverso pilar da estratégia coreana foi a promoção dos chaebols. Conglomerados familiares gigantescos como Samsung, Hyundai e LG. O governo concedeu a esses grupos monopólios temporários, proteção contra a concorrência internacional e acesso preferencial a crédito e licenças de importação. A lógica era criar “campeões nacionais” com escala suficiente para competir nos mercados globais.
Essa política, conforme estudado por economistas como Ha-Joon Chang em sua obra "Chutando a Escada", foi crucial. A proteção inicial permitiu que essas empresas aprendessem, investissem em P&D e alcançassem as fronteiras tecnológicas. A Hyundai, que começou como uma construtora, expandiu-se para a fabricação de navios, automóveis e semicondutores. A Samsung, inicialmente uma empresa de comércio de açúcar e têxteis, tornou-se líder mundial em eletrônicos de consumo e componentes de alta tecnologia.
"A história do capitalismo tem sido, em grande parte, uma história de intervenção estatal. Os governos nos países em desenvolvimento não devem ser tímidos em usar a política comercial e industrial de forma ativa e estratégica para desafiar as hierarquias existentes no mercado global."
Claro, essa relação simbiótica entre estado e chaebols não foi isenta de problemas. A crise financeira asiática de 1997 expôs as fragilidades desse modelo, como o alto endividamento e a falta de transparência. No entanto, mesmo após a crise, as reformas implementadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo governo coreano buscaram aprimorar, e não desmantelar, a estrutura industrial do país. Os chaebols foram forçados a se tornarem mais enxutos, focados e transparentes, fortalecendo sua competitividade a longo prazo.
A Transição para a Vantagem Dinâmica
A Teoria das Vantagens Comparativas Dinâmicas argumenta que a vantagem competitiva não é estática. Ela pode e deve ser criada. A Coreia do Sul fez isso por meio de um processo sequencial e deliberado.
Primeiro, focou em indústrias de montagem com uso intensivo de mão de obra, como têxteis e vestuário, aproveitando seu único recurso abundante na época. Isso permitiu acumular capital e gerar empregos.
Segundo, o país moveu-se para indústrias de capital intensivo, como siderurgia, construção naval e petroquímica. Isso exigiu um grande esforço de investimento e coordenação estatal. A aquisição e adaptação de tecnologia estrangeira (licenciamento, engenharia reversa) foram fundamentais nesta fase. O MDIC brasileiro poderia tirar lições valiosas dessa fase de transição coreana.
Terceiro, e mais importante, a Coreia do Sul fez a transição para indústrias baseadas em tecnologia e conhecimento. O investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) explodiu. Em 2020, a Coreia do Sul foi o segundo país que mais investiu em P&D como proporção do PIB (4, 81%), segundo a OCDE, atrás apenas de Israel. Esse investimento permitiu que empresas como Samsung e SK Hynix não apenas competissem em semicondutores, mas liderassem o mercado global, ditando os ciclos de inovação.
Essa escalada na cadeia de valor é o coração da vantagem dinâmica. É a habilidade de uma nação de transformar sua estrutura produtiva, movendo-se de atividades de baixo valor agregado para outras de alto valor agregado. É a diferença entre montar celulares e projetar os chips que os fazem funcionar.
Lições para o Brasil
A trajetória coreana oferece um contraponto poderoso ao conformismo que por vezes acomete o debate econômico no Brasil. Preso na armadilha da renda média e dependente de ciclos de commodities, o Brasil parece ter abdicado de uma estratégia industrial de longo prazo. A experiência coreana, adaptada à realidade brasileira, sugere um caminho alternativo.
Não se trata de replicar o modelo coreano, um produto de seu tempo e de suas circunstâncias geopolíticas. A economia global de hoje, com suas cadeias de suprimentos fragmentadas e regras mais rígidas da Organização Mundial do Comércio (OMC), é diferente daquela dos anos 1970. No entanto, os princípios fundamentais permanecem relevantes.
O Brasil precisa definir áreas estratégicas onde possa construir vantagens dinâmicas. Bioeconomia, tecnologias verdes, inteligência artificial aplicada à agricultura e saúde são apenas algumas das áreas onde o país possui um potencial latente. Isso exige uma política industrial moderna, que, como aponta a Harvard Business Review, foque em missões e não em setores. Uma política que coordene investimentos públicos e privados em P&D, educação e infraestrutura, criando ecossistemas de inovação.
O investimento em capital humano é, talvez, a lição mais urgente. Sem engenheiros, cientistas e técnicos qualificados, qualquer plano industrial está fadado ao fracasso. A Coreia do Sul entendeu que sua maior riqueza era seu povo. O Brasil precisa redescobrir o mesmo.
Para levar adiante
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Foco na Complexidade: Em vez de apenas exportar mais, o Brasil deve buscar exportar produtos e serviços mais complexos. O "Atlas da Complexidade Econômica" do MIT Media Lab é uma ferramenta crucial para identificar esses caminhos de desenvolvimento produtivo.
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Capital Humano é a Base: A política industrial deve começar na sala de aula. É preciso um esforço nacional para fortalecer o ensino de STEM, vincular a pesquisa universitária às necessidades da indústria e investir na formação de técnicos e engenheiros de classe mundial.
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Estado como Estrategista: O papel do estado não é ser empresário, mas sim um coordenador estratégico, um investidor paciente em tecnologias de fronteira e um criador de mercados. Instituições como o BNDES poderiam ser repensadas para atuar como catalisadoras de inovação em setores estratégicos, seguindo o exemplo do Korea Development Bank.
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Pragmatismo em Vez de Dogma: A Coreia do Sul não seguiu uma receita de bolo neoliberal ou desenvolvimentista. Ela foi pragmática, usando o mercado quando possível e o estado quando necessário. O Brasil precisa superar debates ideológicos e adotar uma abordagem pragmática para construir suas próprias vantagens competitivas no século XXI.