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História do Comércio · 8 min de leitura

Ericsson: A Saga da Gigante Sueca

Da telegrafia em uma oficina de Estocolmo à arquitetura da conectividade global, a trajetória da Ericsson redefine a história da comunicação moderna.

Publicado em 01 de outubro de 2026

Vista da orla de Estocolmo ao amanhecer, com a arquitetura histórica refletida na água e um telefone antigo da Ericsson em primeiro plano.

Do Reparo ao Protótipo: A Gênese

Em 1876, Estocolmo vivia a efervescência da segunda Revolução Industrial. Nesse cenário, um engenheiro de 30 anos chamado Lars Magnus Ericsson, após uma carreira que incluiu trabalhos em minas e ferrovias, abriu uma modesta oficina de reparos de telégrafos. A Ericsson & Co. Mechanised Workshop, localizada na rua Drottninggatan, no coração da cidade, não era, a princípio, um centro de inovação disruptiva, mas de aperfeiçoamento pragmático. Ericsson e seu sócio, Carl Johan Andersson, ganharam reputação pela qualidade e precisão de seus consertos em equipamentos de telegrafia, a tecnologia de comunicação dominante na época.

A virada estratégica ocorreu quando a Bell Telephone Company, dos Estados Unidos, introduziu seus primeiros aparelhos telefônicos na Suécia. Em vez de apenas reparar os dispositivos importados, caros e, segundo ele, imperfeitos, Lars Magnus Ericsson decidiu estudá-los a fundo. Ele desmontou, analisou e redesenhou os telefones da Bell, convencido de que poderia criar um produto superior e mais acessível. O resultado foi o "The Dagger", lançado em 1881, um telefone de mesa que não apenas rivalizava, mas em muitos aspectos superava os modelos americanos em funcionalidade e design. A Telegrafverket, agência estatal de telégrafos sueca, tornou-se uma de suas primeiras grandes clientes, iniciando uma parceria público-privada que impulsionaria a empresa por décadas.

A filosofia de Ericsson era clara: controle de qualidade e integração vertical. Ele acreditava que, para garantir a excelência, a empresa deveria fabricar todos os componentes possíveis, desde o magneto até o acabamento em madeira. Essa obsessão pela qualidade, combinada com um design que unia ergonomia e estética, transformou a Ericsson de uma oficina local em uma potência industrial em menos de uma década.

A Expansão Internacional e a Quebra de Monopólios

No final do século XIX, o mercado de telecomunicações era dominado por monopólios nacionais. A Ericsson, no entanto, visualizou um mundo conectado para além das fronteiras suecas. A expansão internacional começou cedo, com a abertura de escritórios de vendas e, posteriormente, fábricas, em países como Rússia, Reino Unido e México antes de 1900. A estratégia da empresa era adaptar-se aos mercados locais, muitas vezes formando joint ventures ou licenciando sua tecnologia para empresas locais, uma abordagem notavelmente flexível para a época.

A entrada em novos mercados frequentemente significava desafiar monopólios estabelecidos, como o da International Bell Telephone Company. A Ericsson competia não apenas no preço, mas na qualidade e na inovação. Um exemplo notável foi o desenvolvimento de centrais telefônicas manuais de grande capacidade, que permitiram a criação de redes urbanas complexas e eficientes. O "Sistema de Bateria Central" da Ericsson, que alimentava os telefones a partir da central em vez de baterias locais, foi um avanço significativo que reduziu custos de manutenção e melhorou a experiência do usuário.

O crescimento foi vertiginoso. Em 1901, Lars Magnus Ericsson, aos 55 anos, aposentou-se, deixando uma empresa que já era uma multinacional consolidada, com operações em todos os continentes. A gestão que se seguiu, notadamente sob Arvid Lindman e Hemming Johansson, continuou a política de expansão agressiva. Relatórios do início do século XX já posicionavam a Ericsson como uma das principais fornecedoras de equipamentos telefônicos do mundo, competindo de igual para igual com gigantes americanas e alemãs.

"A capacidade de uma nação para competir no cenário global não é mais medida por seus exércitos, mas por suas redes. A velocidade e a confiabilidade com que a informação flui através de suas fronteiras determinam sua prosperidade e influência."

O Desafio da Sobrevivência e da Inovação

O século XX trouxe desafios monumentais. As duas Guerras Mundiais, a Grande Depressão e a Guerra Fria redesenharam o mapa geopolítico e econômico. Para uma multinacional como a Ericsson, com ativos e operações espalhados pelo globo, a sobrevivência dependia de uma agilidade diplomática e operacional extraordinária. Fábricas foram nacionalizadas, mercados foram fechados e cadeias de suprimentos foram rompidas. A icônica fábrica de São Petersburgo, por exemplo, foi perdida após a Revolução Russa de 1917.

Contudo, a Ericsson demonstrou uma resiliência notável. Nos anos entre guerras, a empresa foi fundamental no desenvolvimento de sistemas de comutação automática, que eliminavam a necessidade de operadores humanos para conectar chamadas. O sistema de 500 pontos da Ericsson tornou-se um padrão global, exportado para dezenas de países. No Brasil, por exemplo, a Ericsson instalou uma das primeiras centrais automáticas da América do Sul no início dos anos 1920, um projeto documentado pelo Ministério das Comunicações da época.

A segunda metade do século viu a chegada da eletrônica e, posteriormente, do digital. A transição do eletromecânico para o eletrônico foi um divisor de águas. Em 1977, a Ericsson lançou o sistema AXE 10, uma das primeiras centrais telefônicas totalmente digitais e modulares do mundo. O AXE foi um sucesso comercial retumbante, um "game-changer" que solidificou a liderança da Ericsson na era digital. Sua arquitetura permitia atualizações e escalabilidade sem precedentes, tornando-se a espinha dorsal das redes telefônicas de mais de 100 países nas décadas seguintes, conforme detalhado em análises da Harvard Business Review sobre plataformas tecnológicas.

A Revolução Móvel e a Era da Conectividade

Se o sistema AXE preparou o terreno, a revolução da telefonia móvel catapultou a Ericsson para uma nova estratosfera. Desde os primeiros sistemas analógicos (1G) nos anos 1980, a empresa esteve na vanguarda do desenvolvimento de padrões de comunicação sem fio. Foi na transição para a segunda geração (2G) que a Ericsson consolidou sua hegemonia. A empresa foi uma das principais arquitetas e proponentes do padrão GSM (Global System for Mobile Communications), que se tornou a tecnologia dominante na Europa e em grande parte do mundo.

A aposta no GSM, em detrimento de outros padrões concorrentes, provou ser uma das decisões mais estratégicas da história da empresa. Isso não apenas gerou uma receita maciça com a venda de estações rádio-base e infraestrutura de rede, mas também estabeleceu a Ericsson como a principal fornecedora para as maiores operadoras de telefonia do planeta.

No final dos anos 1990 e início dos 2000, a empresa tentou alavancar sua expertise em infraestrutura para o mercado de consumo, formando a joint venture Sony Ericsson para fabricar aparelhos celulares. Embora tenha produzido alguns modelos icônicos, a competição com novos players como Nokia, e mais tarde Apple e Samsung, provou-se feroz. A empresa acabou vendendo sua participação para a Sony em 2012, uma decisão que, segundo análises do FMI sobre especialização industrial, permitiu à Ericsson focar em sua principal vocação: a construção das "rodovias" da internet móvel.

Com o advento do 3G, 4G e agora do 5G, a Ericsson manteve sua posição como um dos três principais fornecedores globais de infraestrutura de telecomunicações, ao lado de Nokia e Huawei. A complexidade e o custo de desenvolvimento dessas tecnologias criaram um oligopólio de fato. Hoje, estima-se que cerca de 40% do tráfego móvel mundial passe por redes construídas pela Ericsson, um testemunho de sua relevância contínua na era da Internet das Coisas (IoT) e da inteligência artificial.

Para levar adiante

  • A inovação incremental precede a disruptiva: A Ericsson começou melhorando produtos existentes, não inventando algo do zero. A excelência em um serviço ou produto estabelecido pode ser o caminho para identificar e capitalizar em uma inovação maior.

  • Visão global, execução local: A expansão internacional da Ericsson foi bem-sucedida porque a empresa soube adaptar sua tecnologia e modelo de negócios às realidades de cada mercado, uma lição vital em comércio exterior.

  • Foco estratégico é resiliência: Em momentos de crise ou disrupção, como a concorrência no mercado de celulares, a Ericsson sobreviveu e prosperou ao se desfazer de negócios secundários para focar em sua competência principal, a infraestrutura de rede.

  • Padrões técnicos como ferramenta de mercado: A liderança da Ericsson no desenvolvimento e promoção do padrão GSM mostra que influenciar as "regras do jogo" tecnológico pode ser mais poderoso do que simplesmente ter o melhor produto isolado.

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