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História do Comércio · 9 min de leitura

Ericsson: A Dinastia da Infraestrutura Sueca

De uma modesta oficina de telégrafos em Estocolmo à espinha dorsal da conectividade 5G global, a jornada da Ericsson é uma aula sobre inovação, resiliência e domínio estratégico no comércio internacional.

Publicado em 03 de agosto de 2026

Vista do Porto de Gotemburgo ao amanhecer, com um navio de contêineres sendo carregado sob uma luz cinematográfica, representando o comércio global e a origem sueca da Ericsson.

''' Uma névoa fria paira sobre as águas do Riddarfjärden, o corpo de água que abraça o centro de Estocolmo. É 1876. Na rua Drottninggatan, número 15, o som metálico de ferramentas e o cheiro de solda emanam de uma pequena oficina. Ali, um engenheiro de 30 anos chamado Lars Magnus Ericsson, com experiência adquirida em suas viagens pela Alemanha e Suíça, conserta equipamentos de telégrafo para a agência estatal sueca. Este cenário, modesto e artesanal, é o prólogo improvável de uma das mais duradouras e influentes narrativas do comércio global de tecnologia: a história da Ericsson.

A jornada que leva desta oficina à complexa e invisível malha de redes 5G que hoje sustenta parte da economia mundial não é apenas uma crônica de inovação. É um estudo de caso sobre estratégia, resiliência e a capacidade de uma empresa, nascida em um mercado doméstico relativamente pequeno, de se projetar como um padrão global, moldando a própria natureza da comunicação e do comércio.

A Engenharia da Conexão em Estocolmo

O verdadeiro ponto de inflexão para a oficina de L.M. Ericsson não foi o telégrafo, mas o telefone. Quando os primeiros aparelhos da Bell Telephone Company chegaram à Suécia, Ericsson não os viu apenas como um produto a ser revendido, mas como um sistema a ser aprimorado. Ele os desmontou, analisou e, em 1878, começou a produzir seus próprios telefones: aparelhos de maior qualidade e, crucialmente, com um custo menor.

A Suécia, com sua forte tradição em engenharia e um ambiente de negócios favorável, provou ser o berço ideal. A demanda explodiu. A empresa recém-formada, a Ericsson, rapidamente superou a Bell no mercado escandinavo. Um dos seus designs mais icônicos, o "Dachshund" de 1892, com seu magneto de manivela e fone separado, tornou-se um sucesso internacional.

O que distinguiu a Ericsson desde o início, no entanto, foi sua visão inerentemente global. Lars Magnus compreendeu que o mercado sueco, por si só, seria insuficiente para sustentar o crescimento e a escala de P&D necessários para se manter na vanguarda. No final do século XIX e início do XX, muito antes de o termo "multinacional" se popularizar, a Ericsson já estava estabelecendo operações em Xangai, Cidade do México e São Petersburgo. Esta internacionalização precoce, conforme analisado em retrospecto por publicações como a Harvard Business Review, criou uma base resiliente que permitiu à empresa resistir a flutuações econômicas regionais e a construir uma marca de alcance planetário.

Provações e a Ascensão de um Padrão Global

O século XX testou a resiliência da Ericsson de formas brutais. A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa dizimaram mercados importantes. Nos anos 1930, a empresa foi arrastada para a órbita de Ivar Kreuger, o "Rei dos Fósforos", um financista cujo império espetacular colapsou em 1932, levando a Ericsson à beira da falência. Foi a intervenção de um consórcio de bancos suecos, liderado pela família Wallenberg, que salvou a companhia, estabelecendo uma nova estrutura de governança que a guiaria pelas décadas seguintes.

Superada a crise, a Ericsson focou no que se tornaria seu maior trunfo: as centrais de comutação telefônica. O verdadeiro divisor de águas veio nos anos 1970 com o desenvolvimento do sistema AXE. Mais do que um produto, o AXE era uma plataforma de comutação eletrônica modular, controlada por software. Essa arquitetura permitia que as operadoras de telecomunicações atualizassem e expandissem suas redes com uma flexibilidade sem precedentes.

A verdadeira infraestrutura não é o hardware visível, mas a confiança invisível construída ao longo de décadas: confiança na interoperabilidade, na segurança e na capacidade de uma rede para evoluir sem colapsar.

A estratégia de comercialização do AXE foi uma aula magna em negócios internacionais. A Ericsson não apenas vendia o equipamento; ela transferia conhecimento, treinava engenheiros locais e adaptava o sistema às necessidades específicas de cada país. O AXE tornou-se o padrão de fato para a telefonia digital em mais de 100 países, incluindo mercados gigantescos como o Brasil, gerando décadas de receita recorrente e solidificando a reputação da Ericsson como a espinha dorsal da telefonia mundial. Segundo dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) da época, a importação de tecnologia de telecomunicações foi fundamental para a modernização da infraestrutura brasileira, um processo no qual a Ericsson foi protagonista.

A Revolução Móvel e a Aventura no Consumo

A transição da telefonia fixa para a móvel foi o próximo grande teste. A Ericsson estava em uma posição privilegiada. Com sua expertise em redes e radiofrequência, a empresa foi uma das arquitetas do GSM (Global System for Mobile Communications), o padrão 2G que unificou a Europa e, posteriormente, grande parte do mundo. Enquanto a concorrente Motorola focava nos aparelhos, a Ericsson dominava a infraestrutura: as estações rádio-base (ERBs) e os sistemas de controle que faziam a comunicação móvel funcionar.

No início dos anos 2000, contudo, a empresa sentiu a pressão para ter uma presença mais forte no mercado de consumo, que crescia exponencialmente. A resposta foi a criação, em 2001, da Sony Ericsson, uma joint venture 50/50 com a gigante japonesa de eletrônicos. A união parecia perfeita: a engenharia de telecomunicações da Ericsson com o design, marketing e conhecimento de consumo da Sony. A parceria produziu aparelhos icônicos, como os da linha Walkman e Cybershot, que integravam música e fotografia de alta qualidade aos telefones.

Porém, a ascensão do smartphone, liderada pelo iPhone da Apple em 2007 e pelo ecossistema Android do Google, mudou o jogo. O foco se deslocou do hardware para o software e o ecossistema de aplicativos. A Sony Ericsson, apesar de seus esforços, lutou para competir nesse novo paradigma. Em 2012, a Ericsson vendeu sua participação na joint venture para a Sony, marcando o fim de sua aventura no mercado de consumo. Analistas da consultoria McKinsey apontaram na época que a decisão, embora difícil, foi estrategicamente correta. Permitiu à Ericsson se concentrar novamente em sua maior fortaleza: a complexa e altamente lucrativa área de infraestrutura de rede, onde a competição era menos numerosa e as barreiras de entrada, imensas.

O Futuro é 5G (e a Geopolítica da Infraestrutura)

Hoje, a Ericsson opera em um campo de batalha definido pela quinta geração de tecnologia móvel, o 5G. Este não é apenas um upgrade de velocidade. O 5G é a tecnologia habilitadora para a Internet das Coisas (IoT), veículos autônomos, cidades inteligentes e a próxima onda de automação industrial. Seu impacto na produtividade global é estimado em trilhões de dólares pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

A competição é acirrada, principalmente com a finlandesa Nokia e a chinesa Huawei. No entanto, a jornada histórica da Ericsson confere a ela vantagens únicas. Sua reputação de confiabilidade e segurança, construída desde os dias do sistema AXE, é um ativo inestimável.

Mais importante, em um mundo cada vez mais polarizado entre os Estados Unidos e a China, a origem sueca da Ericsson se tornou um diferencial geopolítico. Preocupações com segurança levaram muitos países ocidentais a restringir ou proibir o uso de equipamentos da Huawei em suas redes 5G. A Ericsson, como uma alternativa europeia de alta tecnologia, se posicionou como uma escolha estratégica, uma fornecedora que oferece inovação de ponta sem os mesmos dilemas geopolíticos. A empresa se tornou um pilar não apenas tecnológico, mas também da soberania digital de muitas nações.

Para levar adiante

A saga da Ericsson, de uma oficina em Estocolmo à vanguarda do 5G, oferece lições valiosas para qualquer profissional ou empresa que atua na arena do comércio global.

  • Internacionalize desde o início: A visão global de Lars Magnus Ericsson foi a semente de tudo. Mercados pequenos podem gerar gigantes globais, desde que a ambição internacional esteja presente desde o primeiro dia.

  • Padrões são mais poderosos que produtos: O sucesso duradouro da Ericsson não veio da venda de aparelhos isolados, mas da criação de sistemas e padrões (AXE, GSM) que se tornaram a base da indústria. Definir o padrão é uma das formas mais potentes de domínio de mercado.

  • Resiliência e foco estratégico são cruciais: A capacidade de sobreviver a crises existenciais (como o colapso de Kreuger) e de tomar decisões difíceis (como sair do mercado de consumo) demonstra que a longevidade nos negócios depende tanto da capacidade de adaptação quanto da clareza sobre suas competências centrais.

  • A geopolítica é uma variável de negócio: No século XXI, especialmente no setor de tecnologia, entender o cenário geopolítico é tão importante quanto entender a tecnologia. A nacionalidade de uma empresa e sua posição no xadrez global podem ser um ativo ou um passivo significativo. '''

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