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Uma névoa fria paira sobre as águas do Riddarfjärden, o corpo de água que abraça o centro de Estocolmo. É 1876. Na rua Drottninggatan, número 15, o som metálico de ferramentas e o cheiro de solda emanam de uma pequena oficina. Ali, um engenheiro de 30 anos chamado Lars Magnus Ericsson, com experiência adquirida em suas viagens pela Alemanha e Suíça, conserta equipamentos de telégrafo para a agência estatal sueca. Este cenário, modesto e artesanal, é o prólogo improvável de uma das mais duradouras e influentes narrativas do comércio global de tecnologia: a história da Ericsson.
A jornada que leva desta oficina à complexa e invisível malha de redes 5G que hoje sustenta parte da economia mundial não é apenas uma crônica de inovação. É um estudo de caso sobre estratégia, resiliência e a capacidade de uma empresa, nascida em um mercado doméstico relativamente pequeno, de se projetar como um padrão global, moldando a própria natureza da comunicação e do comércio.
A Engenharia da Conexão em Estocolmo
O verdadeiro ponto de inflexão para a oficina de L.M. Ericsson não foi o telégrafo, mas o telefone. Quando os primeiros aparelhos da Bell Telephone Company chegaram à Suécia, Ericsson não os viu apenas como um produto a ser revendido, mas como um sistema a ser aprimorado. Ele os desmontou, analisou e, em 1878, começou a produzir seus próprios telefones: aparelhos de maior qualidade e, crucialmente, com um custo menor.
A Suécia, com sua forte tradição em engenharia e um ambiente de negócios favorável, provou ser o berço ideal. A demanda explodiu. A empresa recém-formada, a Ericsson, rapidamente superou a Bell no mercado escandinavo. Um dos seus designs mais icônicos, o "Dachshund" de 1892, com seu magneto de manivela e fone separado, tornou-se um sucesso internacional.
O que distinguiu a Ericsson desde o início, no entanto, foi sua visão inerentemente global. Lars Magnus compreendeu que o mercado sueco, por si só, seria insuficiente para sustentar o crescimento e a escala de P&D necessários para se manter na vanguarda. No final do século XIX e início do XX, muito antes de o termo "multinacional" se popularizar, a Ericsson já estava estabelecendo operações em Xangai, Cidade do México e São Petersburgo. Esta internacionalização precoce, conforme analisado em retrospecto por publicações como a Harvard Business Review, criou uma base resiliente que permitiu à empresa resistir a flutuações econômicas regionais e a construir uma marca de alcance planetário.
Provações e a Ascensão de um Padrão Global
O século XX testou a resiliência da Ericsson de formas brutais. A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa dizimaram mercados importantes. Nos anos 1930, a empresa foi arrastada para a órbita de Ivar Kreuger, o "Rei dos Fósforos", um financista cujo império espetacular colapsou em 1932, levando a Ericsson à beira da falência. Foi a intervenção de um consórcio de bancos suecos, liderado pela família Wallenberg, que salvou a companhia, estabelecendo uma nova estrutura de governança que a guiaria pelas décadas seguintes.
Superada a crise, a Ericsson focou no que se tornaria seu maior trunfo: as centrais de comutação telefônica. O verdadeiro divisor de águas veio nos anos 1970 com o desenvolvimento do sistema AXE. Mais do que um produto, o AXE era uma plataforma de comutação eletrônica modular, controlada por software. Essa arquitetura permitia que as operadoras de telecomunicações atualizassem e expandissem suas redes com uma flexibilidade sem precedentes.
A verdadeira infraestrutura não é o hardware visível, mas a confiança invisível construída ao longo de décadas: confiança na interoperabilidade, na segurança e na capacidade de uma rede para evoluir sem colapsar.
A estratégia de comercialização do AXE foi uma aula magna em negócios internacionais. A Ericsson não apenas vendia o equipamento; ela transferia conhecimento, treinava engenheiros locais e adaptava o sistema às necessidades específicas de cada país. O AXE tornou-se o padrão de fato para a telefonia digital em mais de 100 países, incluindo mercados gigantescos como o Brasil, gerando décadas de receita recorrente e solidificando a reputação da Ericsson como a espinha dorsal da telefonia mundial. Segundo dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) da época, a importação de tecnologia de telecomunicações foi fundamental para a modernização da infraestrutura brasileira, um processo no qual a Ericsson foi protagonista.
A Revolução Móvel e a Aventura no Consumo
A transição da telefonia fixa para a móvel foi o próximo grande teste. A Ericsson estava em uma posição privilegiada. Com sua expertise em redes e radiofrequência, a empresa foi uma das arquitetas do GSM (Global System for Mobile Communications), o padrão 2G que unificou a Europa e, posteriormente, grande parte do mundo. Enquanto a concorrente Motorola focava nos aparelhos, a Ericsson dominava a infraestrutura: as estações rádio-base (ERBs) e os sistemas de controle que faziam a comunicação móvel funcionar.
No início dos anos 2000, contudo, a empresa sentiu a pressão para ter uma presença mais forte no mercado de consumo, que crescia exponencialmente. A resposta foi a criação, em 2001, da Sony Ericsson, uma joint venture 50/50 com a gigante japonesa de eletrônicos. A união parecia perfeita: a engenharia de telecomunicações da Ericsson com o design, marketing e conhecimento de consumo da Sony. A parceria produziu aparelhos icônicos, como os da linha Walkman e Cybershot, que integravam música e fotografia de alta qualidade aos telefones.
Porém, a ascensão do smartphone, liderada pelo iPhone da Apple em 2007 e pelo ecossistema Android do Google, mudou o jogo. O foco se deslocou do hardware para o software e o ecossistema de aplicativos. A Sony Ericsson, apesar de seus esforços, lutou para competir nesse novo paradigma. Em 2012, a Ericsson vendeu sua participação na joint venture para a Sony, marcando o fim de sua aventura no mercado de consumo. Analistas da consultoria McKinsey apontaram na época que a decisão, embora difícil, foi estrategicamente correta. Permitiu à Ericsson se concentrar novamente em sua maior fortaleza: a complexa e altamente lucrativa área de infraestrutura de rede, onde a competição era menos numerosa e as barreiras de entrada, imensas.
O Futuro é 5G (e a Geopolítica da Infraestrutura)
Hoje, a Ericsson opera em um campo de batalha definido pela quinta geração de tecnologia móvel, o 5G. Este não é apenas um upgrade de velocidade. O 5G é a tecnologia habilitadora para a Internet das Coisas (IoT), veículos autônomos, cidades inteligentes e a próxima onda de automação industrial. Seu impacto na produtividade global é estimado em trilhões de dólares pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
A competição é acirrada, principalmente com a finlandesa Nokia e a chinesa Huawei. No entanto, a jornada histórica da Ericsson confere a ela vantagens únicas. Sua reputação de confiabilidade e segurança, construída desde os dias do sistema AXE, é um ativo inestimável.
Mais importante, em um mundo cada vez mais polarizado entre os Estados Unidos e a China, a origem sueca da Ericsson se tornou um diferencial geopolítico. Preocupações com segurança levaram muitos países ocidentais a restringir ou proibir o uso de equipamentos da Huawei em suas redes 5G. A Ericsson, como uma alternativa europeia de alta tecnologia, se posicionou como uma escolha estratégica, uma fornecedora que oferece inovação de ponta sem os mesmos dilemas geopolíticos. A empresa se tornou um pilar não apenas tecnológico, mas também da soberania digital de muitas nações.
Para levar adiante
A saga da Ericsson, de uma oficina em Estocolmo à vanguarda do 5G, oferece lições valiosas para qualquer profissional ou empresa que atua na arena do comércio global.
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Internacionalize desde o início: A visão global de Lars Magnus Ericsson foi a semente de tudo. Mercados pequenos podem gerar gigantes globais, desde que a ambição internacional esteja presente desde o primeiro dia.
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Padrões são mais poderosos que produtos: O sucesso duradouro da Ericsson não veio da venda de aparelhos isolados, mas da criação de sistemas e padrões (AXE, GSM) que se tornaram a base da indústria. Definir o padrão é uma das formas mais potentes de domínio de mercado.
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Resiliência e foco estratégico são cruciais: A capacidade de sobreviver a crises existenciais (como o colapso de Kreuger) e de tomar decisões difíceis (como sair do mercado de consumo) demonstra que a longevidade nos negócios depende tanto da capacidade de adaptação quanto da clareza sobre suas competências centrais.
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A geopolítica é uma variável de negócio: No século XXI, especialmente no setor de tecnologia, entender o cenário geopolítico é tão importante quanto entender a tecnologia. A nacionalidade de uma empresa e sua posição no xadrez global podem ser um ativo ou um passivo significativo.
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