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Uma oficina mecânica, na Estocolmo de 1876, exalava o cheiro de óleo e metal trabalhado. No seu interior, um jovem engenheiro chamado Lars Magnus Ericsson, com apenas 30 anos, reparava aparelhos de telégrafo da companhia estatal sueca. Mal sabia ele que sua pequena "verkstad" (oficina, em sueco) se tornaria a semente de uma corporação global, uma arquiteta silenciosa da infraestrutura que, mais de 140 anos depois, conectaria bilhões de pessoas e máquinas em tempo real. A jornada da Ericsson, de consertar telégrafos a projetar o esqueleto do 5G, é uma crônica sobre visão, adaptação e a natureza implacável da inovação tecnológica no cenário do comércio global.
A Origem em Fios de Cobre e Ambição
O momento decisivo para Lars Magnus Ericsson não foi uma invenção sua, mas a de outro. A patente do telefone por Alexander Graham Bell, no mesmo ano de 1876, eletrificou o mundo com uma nova possibilidade. Enquanto a Bell Company via o mundo como um mercado a ser dominado com seus equipamentos, Ericsson enxergou uma oportunidade diferente: a de aprimorar. Ele começou a analisar os aparelhos importados e rapidamente concluiu que poderia construir versões superiores, mais robustas e com maior qualidade de áudio.
Em 1878, os primeiros telefones marca Ericsson já estavam no mercado. Eles não eram apenas funcionalmente superiores, mas também esteticamente refinados, um traço do design nórdico que se tornaria uma assinatura. O sucesso foi imediato. A companhia telefônica sueca, a Telegrafverket, tornou-se uma grande cliente, mas a ambição de Ericsson era intrinsecamente global. No final do século XIX, a Suécia era um país relativamente pequeno, e a expansão internacional não era uma opção, era uma necessidade para a sobrevivência e crescimento do negócio.
Já em 1890, a Ericsson estabelecia operações na Rússia, um de seus primeiros e mais importantes mercados estrangeiros. Logo depois, vieram contratos e fábricas no México e no Reino Unido. Para uma empresa de um país que não era uma potência colonial, essa expansão foi notável. Ela se baseou não na força geopolítica, mas na excelência do produto e na capacidade de adaptação a mercados locais, uma lição que, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), ainda hoje define as exportações brasileiras de maior valor agregado.
Navegando Guerras e a Era de Ouro do Telefone
O século XX trouxe consigo duas guerras mundiais e uma reconfiguração completa do mapa político e econômico. Para muitas empresas, foi um período de destruição. Para a Ericsson, foi um teste de resiliência. A neutralidade da Suécia durante os conflitos, embora complexa, permitiu que a empresa continuasse a operar e, crucialmente, a inovar. Enquanto outras nações focavam sua capacidade industrial no esforço de guerra, a Ericsson aperfeiçoava a tecnologia que reconstruiria a comunicação no pós-guerra.
O período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial foi a era de ouro da telefonia fixa. A demanda por conectividade explodiu em todo o mundo. Foi nesse contexto que a Ericsson solidificou sua reputação como líder em sistemas de comutação telefônica, o cérebro por trás das redes. Seus sistemas de barras cruzadas (crossbar), notáveis por sua confiabilidade e eficiência, foram instalados em dezenas de países, tornando-se a espinha dorsal das redes telefônicas nacionais, da Austrália ao Brasil.
Além da infraestrutura, a empresa também deixou sua marca no design de consumo. O "Ericofon", lançado em 1956 e apelidado de "telefone cobra", foi um ícone do design industrial. Com o disco de discagem na base, foi o primeiro telefone do mundo construído em uma peça única. Mais do que um produto, o Ericofon simbolizava uma cultura de inovação que pensava tanto na função quanto na forma, uma filosofia que, anos mais tarde, seria fundamental na concepção da experiência do usuário em dispositivos móveis.
Em um mercado de tecnologia, a liderança não é conquistada pela invenção de uma única tecnologia disruptiva, mas pela capacidade de orquestrar um ecossistema complexo de hardware, software e padrões. A vitória pertence não a quem cria a primeira peça, mas a quem desenha o tabuleiro mais eficiente para todos jogarem.
A Revolução Móvel e o Desafio da Convergência
A verdadeira transformação da Ericsson, e do mundo, começou com a transição da telefonia fixa para a móvel. A empresa foi uma das pioneiras no desenvolvimento de sistemas celulares. Em 1981, juntamente com outras operadoras nórdicas, lançou o Nordic Mobile Telephone (NMT), o primeiro sistema de telefonia móvel totalmente automático do mundo. Foi um passo revolucionário que permitiu, pela primeira vez, a comunicação contínua entre fronteiras nacionais.
O sucesso do NMT foi um prelúdio para o desenvolvimento do padrão que mudaria tudo: o GSM (Global System for Mobile Communications). A Ericsson foi uma das forças motrizes na definição e na implementação do GSM no início dos anos 1990. Este padrão aberto e interoperável foi o catalisador para a democratização do celular. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a adoção de padrões globais como o GSM é um dos maiores facilitadores do comércio de serviços e tecnologia, criando mercados globais unificados e previsíveis.
No entanto, a virada do milênio trouxe um novo desafio. A indústria convergia rapidamente: infraestrutura, dispositivos e conteúdo se fundiam. A Ericsson, uma gigante da infraestrutura, sentiu a necessidade de ter uma presença forte no mercado de aparelhos, que se tornava cada vez mais competitivo. A resposta foi a criação, em 2001, da joint venture Sony Ericsson, unindo a expertise em telecomunicações da Suécia com a maestria em eletrônicos de consumo e design do Japão. Por um tempo, a parceria foi um sucesso, produzindo telefones icônicos com foco em música (Walkman) e fotografia (Cyber-shot). Contudo, a chegada do iPhone em 2007 mudou as regras do jogo, e a empresa acabou se desfazendo da parceria em 2012, vendendo sua participação para a Sony.
A Era da Infraestrutura e a Corrida pelo 5G
A saída do mercado de consumo de massa, vista por alguns como um fracasso, foi, na verdade, uma decisão estratégica crucial. A Ericsson dobrou a aposta em sua vocação original: a infraestrutura, os serviços e, principalmente, a propriedade intelectual. Em vez de competir com Apple e Samsung nas gôndolas das lojas, a empresa decidiu focar em ser a plataforma invisível sobre a qual o ecossistema móvel funcionaria.
Hoje, a Ericsson é uma das três maiores fornecedoras de infraestrutura de telecomunicações do mundo, ao lado da Nokia e da Huawei. Sua atuação é predominantemente B2B (business-to-business), fornecendo equipamentos, software e serviços para operadoras de telefonia móvel. Estima-se que cerca de 40% do tráfego móvel mundial passe por redes da Ericsson.
A corrida pelo 5G colocou a empresa novamente no centro de uma disputa não apenas tecnológica, mas geopolítica. À medida que a conectividade se torna uma questão de segurança nacional, a origem dos equipamentos de rede virou um tema de debate intenso entre as nações. A Ericsson, como uma empresa europeia, posicionou-se como uma alternativa estratégica em um mercado polarizado. Um relatório da McKinsey de 2023 destaca que a resiliência da cadeia de suprimentos de tecnologia se tornou um fator tão importante quanto o preço ou a inovação, um cenário que favorece players com raízes em democracias estabelecidas.
De uma oficina em Estocolmo para o coração da nova economia digital, a Ericsson demonstra que a relevância no comércio global de alta tecnologia exige uma reinvenção contínua. A empresa que começou conectando vozes por fios de cobre agora conecta o mundo através de ondas invisíveis, provando que o verdadeiro poder não está apenas em fazer o produto, mas em construir o sistema.
Para levar adiante
- Inovação incremental supera a disrupção isolada: A Ericsson raramente foi a primeira a inventar, mas quase sempre foi a melhor em aperfeiçoar, escalar e padronizar. A excelência na execução pode ser mais poderosa do que a primazia da invenção.
- Padrões globais criam mercados globais: A aposta da empresa em padrões abertos como o GSM foi fundamental. Para empresas que atuam no comércio internacional, engajar-se na criação de padrões é uma forma de moldar o mercado a seu favor.
- A coragem de se desfazer do que não é central: A venda da divisão de celulares para a Sony foi uma decisão difícil, mas que permitiu à empresa focar em seu verdadeiro core business: a infraestrutura. Saber abandonar um negócio é tão importante quanto saber iniciá-lo.
- A tecnologia é geopolítica: No mundo atual, a origem e a confiabilidade da tecnologia são questões de segurança nacional. Empresas de setores estratégicos devem navegar um cenário onde as decisões de compra são influenciadas por fatores que vão muito além da ficha técnica do produto.
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